Relações entre “Um sonho de liberdade” e teorias da sociologia

By liusena

Trancado numa cela, rondando entre quatro paredes, leis a cumprir, quem nunca se sentiu aprisionado? São diversos os túneis que os indivíduos vêm tentando escavar para se libertar de certos estorvos, cavando além do seu próprio corpo, o primeiro obstáculo. Deixam de andar na chuva, pular pelas ruas para não serem condenados pela sociedade, para que não sejam chamados de caretas e consequentemente sejam excluídos. Os pensamentos são vazios, a sociedade manipula muitas mentes antes de cometerem o próprio ato de imaginar. Sonhos são destruídos, a esperança morre por causa de uma palavra de desanimo e quando se percebe já é tarde, os pensamentos também foram subordinados. O filme “Um sonho de liberdade” mostra essa realidade, mas apresenta a esperança e a persistência como formas de vencer esses desafios.
Os detentos passam por uma séI-ie de transformações, desde a entrada na prisão, a saída desta, e a entrada em uma prisão com muros invisíveis, à sociedade. O começo na prisão se dá de forma constrangedora, logo de primeira o individuo caminha entre os veteranos na passarela da humilhação. Logo depois são dadas às ordens básicas, as leis a seguir. São lavados, cabelos raspados, e mais uma vez caminham despidos, só que dentro da prisão. As celas são fechadas, as roupas pessoais são dadas e o detento cai na realidade, de que a partir daquele momento sua vida será transformada, sua liberdade tirada, seus componamemos manipulados.
Na cadeia os presos inventam ocupações para se entreter além das tarefas obrigatórias.
Estes afazeres são necessários para que o detento não entre em depressão, para que se sinta útil e que possa se interagir com o grupo para o tempo passar mais rápido. É também uma forma de reabilitação do indi~uo. Andy assim como os outros buscavam algo para se ocupar. Mas algo lhe tomava diferente. Apesar de estar preso, Andy nunca deixou de ter esperança, e foi esta que o fez fugir da cadeia, cavar um túnel com um pequeno martelo, atravessar um cano cheio de excrementos e ir ao México. Foi também com essa esperança e persistência que Andy conseguiu dinheiro para montar uma biblioteca na prisão. Andy caminhava diferente, falava diferente, andava como se fosse invisível, sem problemas, sem preocupações, utilizava de sua capa invisível, seus pensamentos como escudo para n~o se entregar ao desespero.
Os ex-detentos saem com o medo, que os atordoam. São rejeitados, desrespeitados, ficam sem ocupação tentando voltar à vida corrida, diferente, como se mudasse para um outro -país, como se não reconhecesse sua própria língua. Tem que se adaptar ao moderno, ao grupo de excluídos. A sociedade castiga o ex-presidiário excluindo-o do meio. Exclusão também mata, em todas as áreas. Se não fisica, emocional. Essa foi à razão por qual Brooks cometeu suicídio. Razão pela qual preferiu estar na cadeia, onde tinha uma ocupação, um determinado status, onde já possuía um cargo entre os presos os quais em sua maioria o respeitavam e onde se acostumou. Na prisão ele era tido como um intelectual, fora desta, ele era um velho descartável, insignificante. O contrabando na prisão também faz Red ter um determinado status na prisão. Sua posição, sua ocupação, seu poder de conseguir as coisas ilegalmente na prisão lhe concede um prestigio, o qual leva este a ser respeitado pelos detentos. Sair da acomodação e se adaptar ao novo parece ser um suicídio para os dois. O final de Red só é diferente porque prometeu ao Andy que procuraria um presente (uma carta) após ser liberto, lendo esta optou pela vida.
Ao analisar as três características básicas dos fatos sociais, vê-se que o suicídio de Brooks é um fato social. Primeiro porque o suicídio é geral, se apresenta na maioria das sociedades,não é demonstrado por um único individuo, é coletivo. Segundo porque a um grau de coerção que leva o indivíduo a se comportar de tal maneira. A exclusão do detento pela sociedade, o fato de ter que se adaptar ao novo, e a falta de uma ocupação e status levam o individuo a cometer este ato. Terceiro porque é exterior a pessoa, é uma idéia que não foi criada por um individuo isolado, e sim pela coletividade, passada de geração a geração. A condenação de Andy também é um fato social, pois apesar de este ser inocente, as provas, as testemunhas, e o juiz o julgaram culpado por uma sanção legal. E geral, pois todos que são condenados cometendo um crime ou não precisam ser punidos de acordo com a lei. É exterior porque essas leis existem há muito tempo, não foi algo criado agora, por causa de um individuo, é coletivo. Foi essa idéia de coletividade que fez com que a sociologia fosse contra aos pensamentos capitalistas, que considera o individuo como autônomo, e isolado. O filme esclarece várias teorias de Durkhein, destacando exemplos de normas estabelecidas tanto pelos presidiários quanto pelo diretor da prisão.
. Uma destas regras é que se algum detento denunciar quem faz o contrabando, ele é diretamente excluído, não se faz mais negócios com este. Outra norma seria o fato de toda troca, todo negócio ser feito com cigarros, o que foi determinado pelos presos. A terceira seria a manifestação dos presos a chegada de cada novato, suas apostas para ver quem se desespera primeiro ao fechar as celas. Por final também existe as normas estabelecidas pelos próprios homossexuais, que forçam os novatos a satisfazerem seus desejos.
Como uma criança ao botar o dedo na tomada, os presos se comportam, não pela curiosidade do que irá acontecer, mas em troca de seus infinitos desejos infringindo as leis da prisão, logo as punições também são aplicadas a estes. Os guardas são agressivos, espancam, humilham, prendem o detento em uma solitária, seja por uma semana ou por meses, a punição dependerá do grau da transgressão, sendo que nem sempre isso acontece com justiça. No filme “Um sonho de liberdade”, o novato foi espancado até a morte por ter se desesperado com a provocação dos veteranos, pelo medo que a prisão de Shawshank lhe trouxe e pela discussão que teve com guarda. Andy foi levado a uma semana de solitária porque colocou uma música para todos os presidiários ouvirem, e mais algum tempo de solitária por ter apresentado ao diretor sua chance de liberdade, por ter provado sua inocência. O diretor para não se desfazer de seu “ajudante”, optou por esta punição.
Andy com sua experiência de banqueiro e sua inteligência, cnou um personagem invisível chamado Randall Stevens, o qual servia para obter dinheiro de forma ilegal e depositar no nome deste, obtendo lucros para o diretor e os guardas. No final após fugir da cadeia, ele consegue todo o dinheiro, e o diretor acaba se matando para não ser preso.
Stevens é o símbolo do individuo na sociedade capitalista, pois indica a sociedade preconceituosa, aquela que aceita apenas à pessoa que possui o poder financeiro. Sociedade que reconhece os indivíduos como objetos, como cédulas de dinheiro, não como pessoas que possuem nome e personalidade.
Lízia Sena

7 Responses to “Relações entre “Um sonho de liberdade” e teorias da sociologia”

  1. Amanda Says:

    Eu estava rodando textos na internet procurando artigo mais esclarecedores da materia para uma prova de sociologia e achei esse texto. Bom, me fez pensar, adorei o texto até a parte final na qual a conclusão foi feita não por uma vista baseada nas ciências sociais mas uma vista popular. Não é o dinheiro que rege tudo pois afinal sem o dinheiro a prisão continuaria funcionando, mas a questão seria o determinismo mesmo. Os veteranos se sobrepoem e a alienação que se sofre passivamente, com o objetivo de se entreter esperando algo de bom acontecer que no caso seria a liberdade e a restauração das relaçoes socias diferentes, mas pelo menos seria um combustivel para o ser humano lutar.
    Vivemos sim em um sistema capitalista, mas acho que sendo dinheiro, capim ou aboboras não importa. O ser humano é ganancioso e o sistema capitalista só faz alimentar o individualismo e o etnocentrismo que resoltam nessa sociedade precaria que viveram na politica do “cada um por sí”

    beijos.. :D

  2. Elaine Says:

    Excelente comentário!!! Parabéns!!!
    Visão científica e popular. Linguagem clara e acessível a qualquer público. Discurso emancipador!!!

    Um abraço.

  3. Patrícia Michelle Says:

    Fiquei impressionada ao ler esse comentário!
    Parabéns! ótimo artigo!

    Artigo este digno de ima obra-prima!
    Nos faz ter uma outra visão de mundo!

    Parabéns mais uma vez!

  4. paulo izaias Says:

    sou brasileiro e não existe um filme que eu tenha me emocionadocom esse assisti umas 15 vezes ! acredita nisso

  5. MATTBIONDI Says:

    Excelente reflexão. Parabéns.

  6. Clóvis Cardoso Junior Says:

    Poxa, maravilhoso seu texto, meus parabéns…

    Cansei de viver nessa alienção que nos é imposta, viver passivamente esperando que algo de bom aconteça, estou trabalhando aos poucos, não sei o futuro, mas sinto a nessecidade de mudar esse quadro lamentavel em que vivemos hoje.
    Vou copia-lo para o meu computador, vou lê-lo mais vezes.

    Mais uma vez, Meus Parabens!!!

    e até mais…

  7. jana costa Says:

    estava procurando um comentário para um trabalho…adorei!!!!! Foi o melhor e mais completo que encontrei.obrigada

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